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Corinthians termina ano com R$ 57 mi em dívidas protestadas em cartórios

28/12/2025
Em ESPORTES
Corinthians termina ano com R$ 57 mi em dívidas protestadas em cartórios - img

GÉSSICA BRANDINO, IRAN ALVES E LUCAS BOMBANA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Embora o Corinthians tenha garantido uma polpuda premiação em torno de R$ 98 milhões pela campanha vitoriosa rumo ao quarto título da Copa do Brasil, a maior parcela do valor será consumida por dívidas. A Folha localizou mais de R$ 57 milhões em 36 protestos contra o time feitos em cartórios do país até a primeira quinzena de dezembro.

A situação financeira da agremiação é muito ruim. De acordo com balanços apresentados pelos times brasileiros neste ano, o Corinthians está no topo da lista de clubes mais endividados do país, com uma dívida de cerca de R$ 2,7 bilhões. Procurado, o time não se manifestou até esta publicação.

O principal credor nos cartórios é a Fazenda Nacional, que concentra 99% do montante contestado. No dia 23 de setembro, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional registrou uma certidão de dívida ativa contra o Corinthians no valor de R$ 39 milhões referentes a uma dívida com a União.

No dia 21 de novembro, a Fazenda fez outros dez protestos em diferentes cartórios, totalizando outros R$ 17 milhões, por falta de retenção de diferentes tributos que deveriam ser repassados à Receita Federal e de outras contribuições federais obrigatórias.

Na sequência aparece uma empresa de coleta de lixo, à qual o Corinthians deve R$ 35 mil. Os 12 protestos foram feitos nos meses de junho e julho. O terceiro credor é uma empresa de medicina diagnóstica, com um protesto apresentado em julho no valor de R$ 13 mil.

Entre outros credores estão empresas de comunicação, embalagens e bancos. O protesto de menor valor, R$ 145, foi apresentado no dia 21 de junho pelo Governo de São Paulo, por uma taxa judiciária não paga.

“Quando você pensa que o clube tem que decidir o que ele vai pagar e o que não vai pagar, ele decide pagar o salário do jogador, mas não o fornecedor. E o fornecedor é quem garante a operação do clube no dia a dia. Isso é típico de clubes que vão ser estrangulados financeiramente em um dado momento, com penhora de receita, bloqueio de contas”, afirmou Amir Somoggi, diretor da consultoria Sports Value.

Mesmo que excluídos os custos referentes à construção do estádio em Itaquera, o saldo restante de R$ 1,9 bilhão cresce de forma consistente desde 2014 “e tem como característica um comportamento recorrente de não recolher impostos e encargos trabalhistas”, assinalou o economista César Grafietti, sócio da consultoria Convocados.

Desse montante, cerca de R$ 1 bilhão são salários e encargos atrasados, além de acordos e parcelamentos fiscais de imposto de renda, INSS e FGTS. “São valores que foram crescendo ao longo do tempo de forma premeditada: contrata-se o que não se pode pagar, a um custo de pelo menos 15% ao ano em juros. Ou seja, o problema foi criado pelo clube, em diversos mandatos.”

O reflexo disso é uma agremiação que não é capaz de pagar as despesas correntes, nem aquelas que foram repactuadas, disse Grafietti. “No final, os credores passam a usar as ferramentas disponíveis para tentar receber pelo serviço prestado, impactando ainda mais a situação do clube. O que se inicia como uma bola de neve já virou uma avalanche, com consequências graves para o futuro do clube.”

O economista afirmou que a dívida total do Corinthians representa cerca de 2,5 vezes a receita anualizada do clube. “O Corinthians não chegou a esses números por acaso. Eles foram construídos a partir de gestões que jamais se preocuparam com o futuro do clube”, afirmou Grafietti.

Somoggi, da Sports Value, lembra que a origem do buraco financeiro em que o Corinthians se encontra está, em boa parte, vinculada à construção da Neo Química Arena, finalizada em 2014, a um custo de aproximadamente R$ 1 bilhão.

“Nesse período, os juros bancários cresceram muito no Brasil. Hoje estamos falando em 15% do CDI. Então, o dinheiro que o clube faz de bilheteria vai todo para o fundo destinado ao pagamento do estádio”, afirmou Somoggi, lembrando que o Corinthians ainda tem uma pendência em torno de R$ 700 milhões apenas referente ao estádio.

Mais de uma década após o estádio ter sido palco da abertura da Copa do Mundo, apesar do pagamento de parcelas ao longo dos anos, a dívida com a Caixa não caiu como o clube projetava devido a juros, correções e encargos, provocados por atrasos na quitação do financiamento.

“A questão é que o Corinthians gasta como se fosse um clube saudável, sendo que hoje ele está completamente estrangulado financeiramente”, afirmou o consultor -somente considerando o ano de 2025, o clube projeta um prejuízo em torno de R$ 270 milhões.

Somoggi acrescentou que o Corinthians precisa gastar o mínimo possível neste momento para poder se equilibrar financeiramente, ou então terá de recorrer à opção de se tornar uma SAF (Sociedade Anônima de Futebol). “Se o time não reduzir os custos de forma drástica e equilibrar suas finanças, a tendência será de só a SAF salvar o clube.”

Com notórios problemas de fluxo de caixa, a diretoria tenta equacionar obrigações de curto prazo para entrar respirando em 2026. Uma das urgências é pagar cerca de R$ 40 milhões ao Santos Laguna, do México, pela contratação de Félix Torres. Pela inadimplência na aquisição do zagueiro equatoriano, o clube alvinegro foi punido pela Fifa (Federação Internacional de Futebol) com um “transfer ban” e está impedido de registrar jogadores.

A reportagem foi produzida em parceria com o Google. A Folha coletou certidões em cartórios que estão disponíveis à consulta na ferramenta Pinpoint.

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