(CBS NEWS) – Kleber Mendonça Filho, que concorre à Palma de Ouro no Festival de Cannes com “O Agente Secreto”, defendeu a regulamentação do streaming no Brasil, em entrevista coletiva nesta segunda-feira (19).
“Precisamos cuidar da nossa produção e da nossa distribuição. O Brasil precisa organizar o que o mercado de streaming deixa para o cinema brasileiro”, disse ele, que usou como exemplo o modelo da França para a taxação das plataformas. No país europeu, a verba mais generosa coletada pela lei é revertida para a produção interna de filmes.
Segundo o diretor, que venceu o prêmio do Júri por “Bacurau” na edição de 2019 do festival, o Brasil vive um momento próspero para o cinema -e não pode deixar a peteca cair. Segundo ele, os filmes precisam ter uma boa janela de exibição nas salas de cinema antes de ir para o streaming.
“Fico feliz que esse filme [‘O Agente Secreto’], depois de ser completamente explorado na sala de cinema, seja visto no streaming. Mas precisamos ter a implementação de um circuito que seja democrático e com ingressos acessíveis, não de R$ 110 e com pipoca trufada.”
A exibição de “O Agente Secreto” na Croisette acontece dois meses após “Ainda Estou Aqui” faturar o primeiro Oscar para o Brasil, o que colocou a produção nacional novamente sob os holofotes do mundo. “Não dá para não falar de ‘Ainda Estou Aqui’. É um filme que conectou o cinema brasileiro com o seu público depois de anos de falácia, de mentira e ataque a classe artística”, disse Wagner Moura, no dia anterior.
Em comum, os filmes de Walter Salles e Mendonça Filho contam histórias de pessoas que tentam preservar a memória de acontecimentos passados e sobreviver em meio à repressão da ditadura militar. Diferente de “Ainda Estou Aqui”, porém, a trama de “O Agente Secreto” não é centrada na relação dos personagens com o regime.
“Não é coincidência que o Brasil tenha produzido dois filmes que falam da memória histórica de um tempo que tem efeitos concretos no presente”, disse Mendonça Filho. O Brasil sofre de amnésia autoaplicada pela Lei da Anistia, proposta pelo próprio governo militar que desde 1964 tinha cometido incontáveis atos de violência contra a população. Essa amnésia causou um trauma na psicologia do Brasil, e foi normalizado cometer qualquer tipo de violência, para depois passar um pano e recomeçar do zero.”
Wagner Moura, que protagonizou o filme, disse ainda que decidiu trabalhar com Mendonça Filho durante o governo de Jair Bolsonaro. “O Brasil vivia um momento difícil, com características autoritárias em que a universidade, a imprensa e os artistas estavam sendo atacados. Nos reunimos para entender como poderíamos nos posicionar como artistas.”
“O Agente Secreto” mostra a jornada de Armando, pesquisador jurado de morte que volta ao Recife para recomeçar a vida. Como é de praxe na direção de Mendonça Filho, elementos fantásticos começam a aparecer na trama, quase como materializações da imaginação coletiva. O diretor disse que se inspirou nas leituras matinais da sessão policial do jornal pela sua mãe, nos anos 1970.
Na mesma época, jornalistas inventavam histórias metafóricas para driblar a censura da ditadura militar e transmitir a notícia aos leitores. “Isso começou a virar fábula de realidade. A união do mundo que a gente vive com a fábula é algo que acho fascinante”, disse o diretor. “Quando você entra em um lugar escuro, você tem medo. Nada realmente acontece, mas o seu medo é real”.




